A canção “Atrás da Porta”, de Chico Buarque, que foi tão intensamente interpretada por Elis Regina, nos fala sobre a perda de um amor. Aqui pretendemos analisar o eu-lírico da canção de forma tal que possamos enriquecer a nossa experiência de vida e, inclusive, ajudar pessoas queridas que passem por situações semelhantes. Em psicanálise, denominamos luto ao processo interior de elaboração da perda de um objeto amado, seja um amor, uma pessoa, um emprego, um ideal.
O objetivo é ajudar a pessoa a atravessar o luto com a maior lucidez possível.
Na canção “Atrás da Porta”, uma mulher está sendo abandonada, e expõe seus sentimentos, dores e a angústia pela perda que sente por não ser mais o objeto do desejo do seu amado, o que afeta inclusive a sua identidade.
A psiquiatra suíça Elisabeth Kübler Ross elaborou um modelo de respostas emocionas para o luto com cinco estágios: Negação, Raiva, Barganha, Depressão e Superação. Logo no início da canção “Atrás da Porta”, aparecem claramente os dois primeiros estágios do luto desse modelo, a negação e a raiva.
“Quando olhaste bem nos olhos meus
E o teu olhar era de adeus
Juro que não acreditei
Eu te estranhei
Me debrucei
Sobre o teu corpo e duvidei”
Na negação a pessoa tenta manter o que se tinha, manter a relação com tudo que nela há, mesmo as suas dores. O que se quer é fugir da realidade.
“E me agarrei nos teus cabelos
Nos teus pelos
Teu pijama
Nos teus pés
Ao pé da cama
Sem carinho, sem coberta
No tapete atrás da porta
Reclamei baixinho”
Ela se agarra ao que pode em uma súplica para que ele fique, e reclama baixinho em sinal de submissão. A sua dor é profunda.
E então, emerge a raiva
“Dei pra maldizer o nosso lar.
Pra sujar teu nome, te humilhar
E me vingar a qualquer preço”
É na fase da raiva que observamos sentimentos como a revolta, o ressentimento, o mal dizer, o vingar-se e os sentimentos contraditórios que a invadem. Na raiva as emoções emergem ocorrendo uma catarse.
“Te adorando pelo avesso
Pra mostrar que inda sou tua
Só pra provar que inda sou tua”
No trecho acima, o inconsciente intervém e bloqueia a expressão do ódio que, para quem ama, é um sentimento inadmissível em relação à pessoa amada. O inconsciente fura o bloqueio e a faz substituir “te odiando” por “te adorando pelo avesso”, porque o inconsciente quer insistir na submissão como garantia de não rompimento. A palavra “avesso” vai contaminar também os dois versos finais, substituindo “que você ainda é meu” por “que ainda sou tua”.
Conclusão:
Nesta canção, o eu-lírico foi construído com tal consistência que nos permite inclusive ler as interferências do seu inconsciente. Genialidade de Chico Buarque.
Todos atravessamos experiências de perda ao longo da vida, seja por fim de um amor, pela morte de pessoa querida, perda de um emprego etc. Essas perdas provocam um processo psíquico que na psicanálise chamamos de luto. Ter consciência das fases que vivemos no luto nos permite atravessá-lo de forma mais lúcida e chegar inteiros ao outro lado. Uma ajuda qualificada facilita o processo.
Nos próximos artigos, trataremos dos outros estágios do luto.
