A canção “Bastidores” é mais uma obra magistral de Chico Buarque, mais conhecida nas interpretações de Cauby Peixoto e de Cristina Buarque; utiliza aqui o teatro como metáfora psíquica. No palco da vida é que as coisas acontecem, as cenas reproduzem papéis em que colocamos as nossas máscaras e representamos. Por outro lado, nos bastidores, nosso interior, estamos sós e desamparados.
A canção exprime o quanto a dor do abandono nos devasta ao ponto de nos levar à depressão por não ser mais o objeto de amor do outro. A mulher, devastada, coloca a sua máscara e roupa com brilho que salta aos olhos, e, no palco encena, canta, dá o melhor de si para a plateia, para a vida, escondendo a sua dor.
Façamos a análise desta canção segundo os estágios do luto de Elisabeth Ross, como fizemos nos dois últimos artigos. Aqui é principalmente a depressão que entra em cena, acompanhada de um pouco de raiva e barganha, e já se faz anunciar na primeira estrofe:
“Chorei, chorei
Até ficar com dó de mim
E me tranquei no camarim
Tomei um calmante, um excitante
E um bocado de gin”
E prossegue:
“Amaldiçoei
O dia em que te conheci
Com muitos brilhos me vesti
Depois me pintei, me pintei
Me pintei, me pintei”
A raiva ainda está presente, mas ela precisa levar a vida adiante. A plateia não pode esperar, então ela coloca sua máscara e brilhos para representar.
“Cantei, cantei
Como é cruel cantar assim
E num instante de ilusão
Te vi pelo salão
A caçoar de mim”
Ela canta de corpo e alma, expressando sentimentos que a plateia espera dela, mas que ela não tem. A intensidade da entrega auxilia-a a vencer a dor interior. Como é doloroso se demonstrar o que não se tem, representando uma felicidade que dentro não existe. E alimenta autopiedade quando, por ilusão, o vê a caçoar dela.
“Não me troquei
Voltei correndo ao nosso lar
Voltei pra me certificar
Que tu nunca mais vais voltar
Vais voltar, vais voltar
Cantei, cantei
Nem sei como eu cantava assim
Só sei que todo o cabaré
Me aplaudiu de pé
Quando cheguei ao fim
Mas não bisei
Voltei correndo ao nosso lar
Voltei pra me certificar
Que tu nunca mais vais voltar
Vais voltar, vais voltar”
Nas três estrofes acima, podemos perceber um desacordo entre o que ela diz e a manifestação do seu desejo no discurso furtivo de seu inconsciente: enquanto ela afirma que pretende se certificar de que ele não mais vai voltar, seu inconsciente fala em “nosso lar”. Há um evidente desejo de que o lar não esteja desfeito e que “vais voltar, vais voltar”.
“Cantei, cantei
Jamais cantei tão lindo assim
E os homens lá pedindo bis
Bêbados e febris
A se rasgar por mim
Chorei, chorei
Até ficar com dó de mim”.
Ela faz uma apresentação grandiosa, brilhando e atraindo olhares. Ela é o objeto de desejo de outros, mas o que ela quer é continuar sendo objeto de desejo dele. E termina com os mesmos versos com que abriu a canção, demonstrando autopiedade e sua profunda depressão.
Conclusão:
Na depressão, recalca-se os sentimentos agressivos endereçados ao outro; recalca-se raiva e revolta. Ao contrário, a crítica retorna contra si, punindo-se.
Nos bastidores estão os questionamentos – o que em mim é um problema? Por que fui abandonada? Transfere-se para si a culpa e diminui-se a si mesma até a autopiedade.
Todos atravessamos experiências de perda ao longo da vida, seja por fim de um amor, pela morte de pessoa querida, de um emprego etc. Essas perdas provocam um processo psíquico que na psicanálise chamamos de luto. Ter consciência das fases que vivemos no luto nos permite atravessá-lo de forma mais lúcida e chegar inteiros ao outro lado. Uma ajuda qualificada facilita o processo.
Nos próximos artigos, continuaremos a tratar dos estágios do luto.
