Outra canção de Chico Buarque, esta, pensada e escrita para que Maria Bethânia a interpretasse, o que ela fez magnificamente. Em “Olhos nos olhos”, uma mulher nos fala de ter superado o abandono, o fim de um relacionamento.
Analisaremos o eu-lírico desta canção com o objetivo de permitir ao leitor compreender que, quando se vive uma perda, seja de um amor, uma pessoa amada, um emprego, um ideal, transpassam-se estágios. E quanto mais informações e consciência se tem desses estágios, mais inteiros poderemos chegar do outro lado.
Em Psicanálise, o processo interior de elaboração dessa perda é o que se chama de luto, e o papel do psicanalista é auxiliar a elaboração dos conflitos, dores e emoções que surgem, permitindo maior lucidez ao atravessar o processo.
Dentro do modelo concebido pela psiquiatra suíça Elisabth Kübler Ross, temos cinco estágios do luto que são: negação, raiva, barganha, depressão e superação.
Nosso trabalho de análise do eu-lírico nas canções foi iniciado com “Atrás da porta”, na qual analisamos os dois primeiros estágios – a negação e a raiva. Em “Olhos nos olhos” a análise será sobre a barganha, o terceiro dos estágios.
Vamos à canção:
Numa primeira escuta, o eu-lírico de “Olhos nos olhos” parece ter vencido a dor da perda. Devemos, porém, interpretar nas entrelinhas o que ela diz sem saber que diz.
Quando você me deixou, meu bem
Me disse pra ser feliz e passar bem
Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci
Mas depois, como era de costume, obedeci.
A suposta superação é apresentada como uma obediência (“você me disse pra ser feliz e obedeci”). Aqui escapa a submissão, e parece que a superação ocorreria por obediência. Que devemos obedecer é o que nos diz a cultura patriarcal.
Sigamos com a análise, pois ainda é cedo para conclusões.
Quando você me quiser rever
Já vai me encontrar refeita, pode crer
Olhos nos olhos, quero ver o que você faz
Ao sentir que sem você eu passo bem demais
E que venho até remoçando
Me pego cantando
Sem mais nem porquê
E tantas águas rolaram
Quantos homens me amaram
Bem mais e melhor que você
Aqui podemos perceber que ela busca a validação do olhar dele, ainda precisa de sua aprovação. Isto é o que somos: aquilo que nos vemos no olhar do outro. No caso aqui, a aprovação dele parece ser ainda muito importante. Aqui está a barganha: ela lhe oferece uma mulher refeita, “remoçada”, alegre; em troca, ela espera a validação no olhar dele. Por outro lado, ela aproveita para dar-lhe o troco, ferindo-o em sua masculinidade: outros homens a teriam amado melhor do que ele.
Quando talvez precisar de mim
‘Cê sabe a casa é sempre sua, venha sim
Olhos nos olhos, quero ver o que você diz
Quero ver como suporta me ver tão feliz
A barganha se mostra aqui em proposta: eu te oferto uma mulher remoçada e feliz, você volta para casa. O indício de submissão reaparece aqui, como em “obedeci”: venha porque a casa é sempre sua. Ela não o convida como anfitriã, ela o faz como submissa: “A casa é sempre sua, venha ver como estou desejável”.
Conclusão:
Não sabemos se Chico Buarque tinha a intenção de evidenciar uma progressão de superação da dor do abandono com as canções que consideramos, já que há uma distância de quatro anos entre a publicação de uma e de outra.
Em Olhos nos olhos, é inegável que há um início de superação, e não podemos desprezar o esforço daquela mulher do eu-lírico. Na fase de barganha, oferta-se algo em troca da manutenção do objeto de desejo. E ela diz “olhe para mim e para os meus olhos e diga o que vê”. Ela quer seu reconhecimento de que está refeita, alegre, que remoçou e que novamente pode ser o objeto de desejo dele.
Nos próximos artigos, trataremos dos estágios seguintes dessa trilha de superação.
